Conhecendo o solo: receita para tinta de terra

Por Profa. Andressa Alves

Publicado em 04/03/2015

Em Arte, o trabalho com o solo nos permite a observação da natureza sob uma abordagem estética. O solo é vida que se traduz em cores que somente um olhar sensível é capaz de reconhecer. Propõe indagações sobre os olhares de cada um, sem menosprezar a riqueza que existe no olhar de cada criança ou adolescente. 

Visando construir um olhar sensível por meio da observação do meio ambiente, é possível produzir tintas para o trabalho de pintura extraindo pigmentos terrosos coloridos do solo e propor trabalhos com técnicas de pintura a partir desses pigmentos. Desta forma, é possível desenvolver o sentido tátil do aluno, levando-o a perceber as diferentes granulações de cada tipo de solo.

As tintas feitas com pigmento extraídos da terra são fáceis de fazer e levam os alunos a se interessarem pelo processo. Depois de pronta, a tinta pode ser usada em pinturas que representem a natureza e componham formas do espaço próximo conhecido, a história do lugar, utilizando os pigmentos terrosos do próprio espaço habitado.

Ao construir um olhar sobre o lugar onde vive e extraindo dele suas informações, obtém-se uma aprendizagem significativa, fundamental na construção do conhecimento. Também amplia-se a percepção sobre o espaço vivido, além de ressaltar a identidade e a afetividade com o lugar.

Existem várias maneiras de produzir tinta a partir de amostras de terra: com água, têmpera (com ovo), cola branca, etc. Tudo depende do tipo de terra que você vai usar, pois cada tipo tem uma particularidade, por exemplo: 

Terra roxa: a terra roxa (latossolo) da região da bacia do Paraná, é um tipo de solo que possui muito ferro, por isso sua cor é tão marcante e adere mais facilmente ao suporte. Por isso, quando a usamos para pintar, não precisamos de muita cola, pois o ferro naturalmente vai penetrar no tecido, no papel, etc.

Argila: as argilas mais puras - aquelas que você pode conseguir em papelarias, ou nas margens de rios -, são muito “plásticas”. Por isso, elas têm uma consistência mais firme, e também não necessitam de muita cola.

Solo arenoso: os tipos de solo arenosos, com maior quantidade de grãos de areia, mais finos ou mais grossos, possuem cores mais vibrantes. Entretanto, eles são desagregados, e precisam de mais cola para dar consistência de tinta e fixar no suporte.

 

Como preparar a tinta de terra

Para fazer a tinta de terra (que as crianças podem coletar em qualquer lugar), você pode proceder da seguinte maneira:

1. Se a terra estiver seca, pegue as amostras e passe por uma peneira grossa para tirar pedacinhos de madeira, folhas, pedrinhas, etc.

2. Se a terra estiver molhada, não tem problema. Você pode deixá-la líquida, colocando mais água e coando na peneira da mesma maneira.

3. Adicione água (na terra seca) até conseguir uma consistência boa para que os alunos possam manusear com pincel. Se colocar água demais, ou se a terra já estiver com água (que usou para peneirar), deixe decantar por algum tempo. A terra irá descer rapidamente, e então escorra a água que ficar por cima.

4. Separe a quantidade de terra que vai usar no dia para preparar a tinta, pois depois que colocamos a cola, devemos descartar o que sobra, pois a tinta irá secar e não poderá mais ser utilizada.

5. Coloque a terra em um pote (recipiente qualquer) e vá misturando a cola branca aos poucos. Dependendo do tipo de terra, não será necessário adicionar muita cola, apenas o suficiente para deixar com consistência cremosa. Misture bem.

6. Você também pode usar o liquidificador para preparar a tinta. Para isso, coloque tudo no copo do liquidificador e bata com água suficiente para rodar a pá. Se você colocar muita água, despeje tudo em um recipiente alto, espere decantar e escorra a água que ficará por cima. 

7. O uso do liquidificador é mais indicado quando você quer uma terra sem textura. A terra que contém grãos maiores, por exemplo, poderá conter grãos mesmo depois que é passada na peneira. Isso dá textura ao desenho. Mas se a ideia for fazer uma pintura sem textura, é preciso bater a terra no liquidificador. Nas terras arenosas, entretanto, os grãos maiores permanecerão mesmo depois de processados no liquidificador - eles não irão sumir, apenas diminuir.

8. Lembre-se: só coloque a cola na tinta que irá usar no dia, ou no dia seguinte.

9. A tinta produzida pode ficar guardada por muito tempo, desde que esteja sem a cola. Para isso, ela deve ser guardada em um pote bem vedado. Se ela secar, basta adicionar água novamente.

 

Tinta com argila

Para preparar a tinta com argila, que pode ser encontrada nas papelarias - a argila escolar, que possui vários tons e é interessante para variar as cores dos trabalhos de pintura -, você pode proceder assim:

1. Separe a quantidade de argila necessária para dar origem à tinta.

2. Coloque em um pote com tampa e adicione um pouco de água. 

3. Vá misturando aos poucos até a argila dissolver e ficar com consistência cremosa (ou bata tudo no liquidificador como mencionado anteriormente).

4. Coloque um pouco de cola para fixação no papel ou tecido.

5. A argila preparada com água (sem cola) pode ficar guardada por muito tempo. Se quiser, você pode pingar algumas gotas de vinagre na mistura para evitar o mau cheiro. Se a tinta secar, adicione água novamente.

Uma dica final: a tinta de terra tem cores diferentes quando molhada e quando seca. Se quiser, você pode passar verniz fixador em cima dos desenhos, ou ainda, diluir a cola branca em água, colocar em um borrifador e borrifar sobre os desenhos depois que estiverem secos. A cor ficará mais vibrante e isso também vai evitar por mais tempo que a tinta descasque, pois se a camada passada pelo aluno com o pincel for muito grossa, a probabilidade isso acontecer é grande, sobretudo se o papel utilizado for muito fino.

Veja abaixo algumas pinturas com tinta de terra produzidas por Andressa Alves, inspire-se e bom divertimento!

 

Para saber mais:

BACHELARD, Gaston. A Terra e os devaneios da vontade. Ensaio sobre a imaginação das forças. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1971.

BUENO, Maria Lucina Busato. Vivências do fazer pictórico com tintas naturais. Passo Fundo: UPF Editora, 2005.

GONÇALVES, Sueli. Terra sobre tela. In: Revista Globo Rural, São Paulo, n. 239, p. 62-63, set/2005.

VERGARA, Carlos. Site do artista. Disponível em: <http://www.carlosvergara.art.br/novo/pt>. 

Voltar