É possível ensinar Física, Química e Biologia juntas?

Por Olga Aguilar Santana

Publicado em 19/08/2015

Se você for professor de Ciências no Ensino Fundamental, certamente já deu aulas em que conceitos de Física, Química e Biologia aparecem juntos, mesmo sem ter pensado muito no assunto.

Pois não é só possível unir o conteúdo dessas três disciplinas, como é vantajoso para a aprendizagem do aluno que isso aconteça. Afinal, em Ciências, estudamos as coisas do cotidiano, e por todo lado vemos situações que remetem a ela. Mas, na etapa do Ensino Fundamental, não faz muito sentido desmembrar o conteúdo de suas diferentes disciplinas, estudando-as em momentos ou até em anos diferentes.

É importante que o aluno passe primeiro pela experiência de refletir sobre os conteúdos do jeito que eles aparecem para ele, ou seja, juntos. Vamos lembrar de algumas dessas situações?

A criança está com febre e tomou antitérmico há pouco tempo? É hora de colocar panos frios na testa ou dar um banho morno em uma banheira! Quer tomar água fresquinha? Coloque-a dentro de uma moringa de barro.

Essas são só algumas situações que os professores de Ciências podem usar como contexto para repassar conteúdos importantes e que envolvam conceitos de mais de uma disciplina. Situações assim, próximas dos alunos, contextualizam a aprendizagem, tornando-a mais significativa para eles.

Banho morno

Quando um líquido - a água por exemplo - evapora, a temperatura do sistema diminui porque a mudança de estado vaporização necessita de calor para que isso aconteça. É por isso que damos um banho morno em uma criança com febre: para evaporar, a água usa o calor do corpo e reduz a sua temperatura, até o antitérmico fazer efeito.

Veja que, para compreender essa situação tão comum, o aluno precisa dominar um conceito físico, mesmo que esteja estudando um tema de saúde ou do corpo humano (a febre em si).

Suor

Se quisermos ir além e usar a situação do antitérmico para diminuir a febre, iremos cair no conceito de suor. O que é o suor? Por que suamos?

Suamos para controlar a nossa temperatura. Suando, eliminamos a água líquida que, ao evaporar, rouba calor do corpo e diminui a sua temperatura.

De língua para fora

Podemos ainda lembrar de mais alguns assuntos inter-relacionados: o fato de os cachorros ficarem de língua de fora quando precisam perder calor, por exemplo. Eles fazem isso para expor a saliva - que evapora, ajudando-o a diminuir sua temperatura -, e não por estarem cansados.

Água fresca

Outro assunto a se colocar em discussão é por que a água em uma moringa (ou filtro) de barro esfria com o passar do tempo, e não quando a deixamos dentro de uma moringa de vidro. O barro permite que a água evapore, diminuindo assim a temperatura dela no seu interior.

Integração

Em todos esses casos, a explicação científica é a mesma. Porque então deixar para tratar a Física somente no 9º ano? Ou o suor, de que costumamos falar quando estudamos a estrutura da pele ou outro tema do corpo humano, no 8º ano? E a água esfriando na moringa de barro no 6º ano, quando abordamos as mudanças de estado?

Deixamos um desafio: seria possível trabalhar assim, de maneira integrada, se escolhêssemos adotar um currículo que separa a Biologia da Física e da Química?

Podemos até achar que já fazemos essa integração. Mas, como estamos sempre preocupados com a programação, com o tempo, acabamos usando algumas situações mais “distantes” do conteúdo que estamos tratando só como exemplos, lembrando delas durante a exposição teórica. Isso basta?

O ideal é usar essas situações como contextos desafiadores de aprendizagem, dando tempo para o aluno refletir e fazer as relações entre elas. Poderá parecer que estamos perdendo tempo, mas na verdade veremos o contrário, pois não precisaremos voltar constantemente aos mesmos conteúdos. A aprendizagem terá mais sucesso e o aluno não se esquecerá do que aprendeu.

Sobre a autora

Mestre em Ensino de Ciências, Olga Aguilar Santana é professora aposentada da rede pública estadual de São Paulo (SP) e coautora majoritária de uma coleção de livros de Ciências Naturais para o Ensino Fundamental II com excelentes resultados nas Avaliações do MEC – PNLD 2008, 2011 e 2014.

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