Os porquês da reaproximação Estados Unidos - Cuba

Por Levon Boligian

Publicado em 22/07/2015

Nas últimas semanas muito tem se ouvido falar na mídia nacional e internacional sobre o reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos. Por isso, é muito provável que esse assunto volte várias vezes à tona nas aulas e nas conversas de corredor da escola.

No que se refere às discussões em sala de aula, fique atento e leve os alunos a desenvolverem uma visão crítica sobre esse assunto, que certamente deve se tornar um dos fatos históricos mais marcantes desse início de século.

Propomos algumas questões importantes para serem lançadas e pistas sobre suas prováveis respostas. Então vamos lá:

Por que a decisão dessa reaproximação aconteceu no atual governo Obama? O que os Estados Unidos pretendem com isso?

A reaproximação já era uma promessa de campanha do presidente estadunidense Barak Obama, intenção que ele deixou marcada já no início de seu primeiro mandato, declarando que os Estados Unidos deveriam “buscar um novo começo” com Cuba. Na realidade isso mostra que Obama quer entrar para a história como o único presidente estadunidense que, de fato, conseguiu formalizar essa reaproximação e, quem sabe, convencer o Congresso dos EUA a levantar o embargo econômico a Cuba. Ele faz isso nesse momento devido um cenário extremamente favorável às suas intenções, pois vejam:

  • Segundo pesquisas, a maioria dos estadunidenses (56%) está a favor de uma reaproximação, índice que ultrapassa os 60% nos estados com significativa população de ascendência hispânica. É visível a intenção de Obama de aumentar seu nível de popularidade dentro dessa comunidade, vide o decreto apresentado em novembro, que busca legalizar a permanência de uma parcela significativa de imigrantes, até então, clandestinos no país;
  • A crise Venezuelana, país que aproximadamente nos últimos 15 anos tem sido o principal parceiro comercial de Cuba, coloca em xeque a ajuda financeira do governo bolivariano de Nicolás Maduro e o envio de petróleo subsidiado para a ilha dos irmãos Castro;
  • Devido ao fato acima, há quem diga que a Casa Branca receie que a Rússia preencha o vácuo que está sendo deixado pela Venezuela, voltando a ser um parceiro comercial e, quem sabe, militar de peso dos cubanos;
  • Com o ex-presidente cubano Fidel Castro moribundo (não se espante se até ler essa matéria acabe se deparando com a notícia da sua morte), Raúl Castro, atual presidente de Cuba, cercou-se de uma nova geração de membros do Partido Comunista, que vem o auxiliando na implantação de mudanças na economia cubana, ainda que graduais e discretas;
  • Entre essas mudanças está o fato de, nos últimos anos, o governo cubano ter permitido a entrada de investimentos estrangeiros oriundos, por exemplo, do México e da Espanha no setor de turismo e hotelaria, e do Brasil no setor de infraestrutura (veja o caso da construção do porto de Mariel). Isso tem deixado vários setores do empresariado dos EUA bicudos, já que eles não podem investir em um mercado considerável (quase 10 milhões de trabalhadores altamente qualificados) que se encontra a apenas 140 quilômetros da costa estadunidense. Na realidade, já existe um forte lobby de empresas multinacionais, sobretudo do setor de agronegócios, que estão “de olho” na abertura econômica de Cuba para o mundo. Elas têm apoiado declaradamente Obama, pois argumentam que o embargo não permite que negócios, da casa de dezenas de bilhões de dólares, sejam fechados anualmente com Cuba.

Qual o significado histórico dessa reaproximação?

Realmente, a reaproximação é um marco histórico, já que as duas nações não se relacionavam diplomaticamente há 53 anos. A retomada do diálogo entre os dois chefes de Estado mostra que existem intenções sérias e pragmáticas de ambas as partes em se restabelecer os laços de amizade. Além disso, a atitude de ambos poderá por fim ao último resquício dos anos de Guerra Fria no continente americano, já que o embargo a Cuba foi uma medida estratégica dos Estados Unidos para “conter a expansão” do comunismo por aqui.

O que muda na prática com a união EUA - Cuba?

É importante entendermos que, em relação ao embargo econômico propriamente dito, neste primeiro momento não muda quase nada, já que a intenção do governo Obama de “levantar” o embargo a Cuba deverá ter aprovação maciça dos deputados do Congresso estadunidense. Essa é uma “guerra” interna que Obama deverá enfrentar durante os próximos meses, sem sabermos ainda como ele conseguirá seduzir a bancada republicana que, hoje, representa a maioria no Congresso e se apresenta altamente resistente à ideia de cessar o embargo.

Entretanto, existe uma série de medidas que já poderão ser colocadas em prática pelo governo estadunidense, sem necessidade de sanção do Congresso. Entre as principais estão:

  • Restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, com a reabertura das embaixadas em ambos os territórios;
  • Exclusão de Cuba da lista dos países que apóiam o terrorismo;
  • Início de rodadas de reuniões (a primeira acontece dia 21/01 em Havana) buscando se estabelecer os marcos que irão balizar a normalização das relações entre os dois países;
  • Aumento do valor limite da remessa de dinheiro de cubano-estadunidenses para familiares em Cuba;
  • Autorização para que pessoas físicas e jurídicas estadunidenses possam importar bens de até US$ 400,00 de Cuba;
  • Restabelecimento dos serviços de telecomunicações entre os dois países, sobretudo da internet.

Para saber mais:

Faça a leitura de um artigo publicado na revista Cidade Nova - para a qual demos consultoria sobre o assunto - que fala dos motivos para o distanciamento entre as nações, das razões para a reaproximação e das mudanças que este processo deverá trazer. Para visualizar o artigo, clique AQUI.

Apresente também para a turma este documentário (clique AQUI para ver), produzido pela GloboNews, que mostra de maneira bastante imparcial o dia a dia dos cubanos hoje e a opinião deles a respeito da reaproximação com o vizinho Estados Unidos.

Crédito fotos:

Foto 1 - epoca.globo.com

Foto 2 - havanatimes.org

Foto 3 - ds-lands.com

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